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Thursday, June 02, 2005

Fado

Acho melhor começar assim do final mesmo que é pra evitar que as lembranças encubram a verdade dos fatos. Hoje havia um luto dentro de si que não podia explicar como ele ali se instalara, mas já estava a tanto tempo lá, que era como se sempre houvesse existido ou faltado ou sido esperado. Viver com o luto ou com a dor não era difícil, nem incomodava, nem tampouco doía, como se presume sempre das coisas tristes da vida. Apenas diferia de viver sem ele, como se tivesse trazido consigo uma falta de esperança que dava mais sentido à vida do que a própria esperança. Havia se conformado de que o único destino seu era a solidão absoluta, tal era a sua incapacidade de sentimentos. Por se sentir impar num mundo de sociabilidade incurável, é que tinha assim se imposto esse luto eterno, na clausura de uma vida dedicada aos prazeres pessoais, sem necessidades prementes de outros que lhe impusessem condições. Jamais tivera um dia de paz, tentando sempre preencher as expectativas circundantes. Mas, sem que percebesse, em algum outro canto de uma alma tão preocupada em existir de acordo, brotava algo tão ímpar, como anticorpos que silenciosamente combatiam a doença do adestramento com uma rebelião muda. Rebelião esta que nem ela mesma chegou a compreender ou acompanhar, sendo assim surpreendida por ela no momento em que finalmente enxergara que não haveria nenhum outro rumo a ser tomado, que o da completa alienação. Era, dessa forma, escrava de algo que ela mesma criara sem perceber, mas que apesar de não ser sua totalidade era sem dúvida sua parte mais forte.

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