Depois de tantos corações partidos, não sabia mais se tinha coração. Parecia que, embora das primeiras vezes os caquinhos colassem bem, com poucas emendas aparentes, agora faltavam inúmeros pedaços. Onde eles teriam ido parar? Será que haviam sido carregados pela corrente sanguínea e, aos poucos excretados pelo seu corpo? A massa que restava parecia um tanto amorfa , não lembrava nem de longe um coração. Seria essa massa capaz de algum sentimento? Mais importante: queria se-lo?
Não havia respostas fáceis para quaisquer destas perguntas, mas havia um novo alguém batendo na porta e um clamor que vinha de outras partes do corpo para que se abrisse a porta a porta sem perguntas e sem demora.
Mas, e agora?
Quando se recebe uma visita, há que se oferecer um biscoitinho, um café ou, em noites frias, um vinho, quem sabe? Não sentia-se capaz de oferecer nada. Bom, havia sempre o corpo,mas o corpo era tão gasto, tão sem energia que nem tinha coragem de entregar. Afinal, com tantas portas no mundo, algumas até abertas, porque houvera de bater ali? Com certeza errara o caminho. Era só atender e dizer: "Pois não?" `"É aqui que mora fulano?" "Não, fulano se mudou há uns três ou quatro anos." E então o estranho agradeceria e iria embora. É, decerto era só isso, um engano. Mas em algum lugar daquele seu coração que já não batia, havia uma vozinha que rezava para que não fosse um engano, para que o estranho não perguntasse nada, fosse só entrando e se fazendo em casa e pusesse os pés na mesinha de centro, enquanto calmamente fumava seu cigarro. Senão, é capaz que ficasse parada na porta e o visse ir embora sem sequer sentir nada que lhe provasse estar viva.