blog de contos, ensaios, poesias, meus e de outros

Monday, June 27, 2005

Mais uma de Clarisse

"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."[1]
[1] LISPECTOR, Clarice.

Thursday, June 23, 2005

Meu amor, não tenhas medo da carência. Ela é nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, sempre está. Falta apenas o golpe da graça que se chama paixão. Clarisse Lispector

morrer é apenas não ser visto
morrer é a curva da estrada
Fernando Pessoa

Sunday, June 12, 2005

Ex amigos

Eu hoje acordei tão só...
Mas só de que eu merecia
Acho que será pra sempre
Mas sempre não é todo dia

Resolvi desenterrar alguns fantasmas da alma hj. Fiz uma sessão espírita com o meu passado e convoquei todos os meus ex-amigos. Um desavisado pode pensar que o ex-amigo é aquele com quem brigamos, que nos traiu ou sacaneou. Mas esse não é ex-amigo: é inimigo. Nem todo inimigo tem que ser aquela coisa de novela das oito, que esfaqueia o outro, destrói a vida dele e tal. Ele é o oposto do amigo. Aquele que faz coisas que um amigo nunca faria. O ex-amigo não, já é uma categoria toda especial. È aquela pessoa que vc sempre amou e ainda ama muito, mas não faz mais parte da sua vida. Costumava contar tudo que se passava no seu coração e na sua cabeça torta, mas hoje representa só mais um cartão de natal na sua lista. Ou mais um amigo na sua lista de Orkut. Ou um e.mail eventual.
Fato é que, por mais triste que nos pareça, não conseguimos manter tantos amigos quanto amamos. Tem tanta gente que eu amei na vida, que participou dos meus conflitos, que me ouviu, que eu ouvi e com as quais eu fiz coisas únicas. Pessoas que não vejo mais, não sei mais delas, e se soubesse, de que adiantaria? Não sou sequer a mesma pessoa que mora nas lembranças delas.
Mesmo assim, é bom ter notícias. Hoje eu achei o blog de uma ex-amiga minha que está em Londres. Há uns 15 meses que ela foi e mesmo antes disso já não nos víamos há anos. Mas apesar de tudo, em nenhum dia de todo esse tempo, eu gostei menos dela. E me lembro das coisas que a gente fez junta e só podia ter feito juntas, pois nos conhecemos em condições tão peculiares. Ser ex-amigo é mais que ser amigo às vezes, pois pra ser lembrado embora distante, é necessário muito apego. Com a vida corrida que temos agora que somos todos adultos e responsáveis, é fácil nos esquecermos de pessoas que estão ao nosso lado. Mais fácil ainda é esquecer quem está longe. Mas quando não se esquece, isso pode significar que a canção estava certa, e contato nem sempre significa afeto ou distancia esquecimento.

Friday, June 10, 2005

Depois de tantos corações partidos, não sabia mais se tinha coração. Parecia que, embora das primeiras vezes os caquinhos colassem bem, com poucas emendas aparentes, agora faltavam inúmeros pedaços. Onde eles teriam ido parar? Será que haviam sido carregados pela corrente sanguínea e, aos poucos excretados pelo seu corpo? A massa que restava parecia um tanto amorfa , não lembrava nem de longe um coração. Seria essa massa capaz de algum sentimento? Mais importante: queria se-lo?
Não havia respostas fáceis para quaisquer destas perguntas, mas havia um novo alguém batendo na porta e um clamor que vinha de outras partes do corpo para que se abrisse a porta a porta sem perguntas e sem demora.
Mas, e agora?
Quando se recebe uma visita, há que se oferecer um biscoitinho, um café ou, em noites frias, um vinho, quem sabe? Não sentia-se capaz de oferecer nada. Bom, havia sempre o corpo,mas o corpo era tão gasto, tão sem energia que nem tinha coragem de entregar. Afinal, com tantas portas no mundo, algumas até abertas, porque houvera de bater ali? Com certeza errara o caminho. Era só atender e dizer: "Pois não?" `"É aqui que mora fulano?" "Não, fulano se mudou há uns três ou quatro anos." E então o estranho agradeceria e iria embora. É, decerto era só isso, um engano. Mas em algum lugar daquele seu coração que já não batia, havia uma vozinha que rezava para que não fosse um engano, para que o estranho não perguntasse nada, fosse só entrando e se fazendo em casa e pusesse os pés na mesinha de centro, enquanto calmamente fumava seu cigarro. Senão, é capaz que ficasse parada na porta e o visse ir embora sem sequer sentir nada que lhe provasse estar viva.

Thursday, June 09, 2005

Mil desertos se abrem em mim
Toda vez que me entrego
Ao sofrimento de insistir em te querer
Quando te quero, não sou mais eu
Vazio de razão no escuro e úmido do desejo

..... Não, te amar não é bom

Wednesday, June 08, 2005

Outro trecho sem nome

Não fomos senão dois preguiçosos do amor
Eu, porque não corri atrás o quanto queria,
O quanto fisicamente eu precisava
Você, porque nem se deu ao trabalho de sentir
E o seu não sentir
Fez com que o meu orgulho matasse o que eu sentia
Depois de tantos diálogos imaginários e mudos
Que travei com você
Só a isso consegui chegar:
Ao eterno silêncio com que comecei

Trechos sem título

Meu silencio
Esse lugar do corpo povoado de memórias e desejos não realizados
De saudades de aventuras imaginárias não vividas
Será que tudo em mim será sempre assim no plano da imaginação?
Será que a vida plena é assim tão irrealizável?
Ou apenas a minha letargia impede que tudo seja tão belo quanto nos filmes e poesias dos outros?
Talvez eu apenas invente minha grande dor pela minha própria incapacidade de sentir plenamente

Thursday, June 02, 2005

Fado

Acho melhor começar assim do final mesmo que é pra evitar que as lembranças encubram a verdade dos fatos. Hoje havia um luto dentro de si que não podia explicar como ele ali se instalara, mas já estava a tanto tempo lá, que era como se sempre houvesse existido ou faltado ou sido esperado. Viver com o luto ou com a dor não era difícil, nem incomodava, nem tampouco doía, como se presume sempre das coisas tristes da vida. Apenas diferia de viver sem ele, como se tivesse trazido consigo uma falta de esperança que dava mais sentido à vida do que a própria esperança. Havia se conformado de que o único destino seu era a solidão absoluta, tal era a sua incapacidade de sentimentos. Por se sentir impar num mundo de sociabilidade incurável, é que tinha assim se imposto esse luto eterno, na clausura de uma vida dedicada aos prazeres pessoais, sem necessidades prementes de outros que lhe impusessem condições. Jamais tivera um dia de paz, tentando sempre preencher as expectativas circundantes. Mas, sem que percebesse, em algum outro canto de uma alma tão preocupada em existir de acordo, brotava algo tão ímpar, como anticorpos que silenciosamente combatiam a doença do adestramento com uma rebelião muda. Rebelião esta que nem ela mesma chegou a compreender ou acompanhar, sendo assim surpreendida por ela no momento em que finalmente enxergara que não haveria nenhum outro rumo a ser tomado, que o da completa alienação. Era, dessa forma, escrava de algo que ela mesma criara sem perceber, mas que apesar de não ser sua totalidade era sem dúvida sua parte mais forte.